Na tarde desta terça-feira (28), a cidade do Rio de Janeiro foi tomada por um clima de extrema tensão, após represálias orquestradas pelo tráfico de drogas em diversos pontos da cidade. Barricadas, formadas por veículos incendiados e entulho, foram espalhadas em áreas como a Linha Amarela, Grajaú-Jacarepaguá e Rua Dias da Cruz, no Méier, entre outros locais. Esses bloqueios paralisaram a cidade, gerando um cenário de guerra e levando o Centro de Operações e Resiliência (COR) a elevar o nível de alerta para o estágio 2 de uma escala de 5. Diante da gravidade da situação, a Polícia Militar colocou todo o seu efetivo nas ruas, suspendendo atividades administrativas para focar no combate à violência.
O ataque de traficantes e criminosos faz parte da sequência da Operação Contenção, uma ação permanente do governo estadual voltada para a repressão ao avanço do Comando Vermelho (CV) em comunidades fluminenses. A operação, que mobilizou pelo menos 2.500 agentes das forças de segurança, visava cumprir quase 100 mandados de prisão.
Na madrugada de terça-feira, ao chegarem às áreas de conflito, as equipes de segurança foram recebidas a tiros e com barricadas em chamas, em uma resposta violenta dos criminosos. Em um dos vídeos que circulou nas redes sociais, é possível ouvir mais de 200 disparos em apenas um minuto, enquanto colunas de fumaça tomavam conta da área. A Polícia Civil relatou ainda que, em represália, traficantes utilizaram drones para lançar bombas sobre os agentes, e outros bandidos tentaram fugir em fila indiana pelas partes altas das comunidades, uma cena que remete ao caos durante a ocupação do Complexo do Alemão em 2010.
Em um balanço divulgado na manhã de quarta-feira (29), o governo do estado confirmou a morte de 121 pessoas durante a megaoperação, que envolveu os complexos do Alemão e da Penha. O número inclui 4 policiais mortos e 117 criminosos. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, destacou que, entre os mortos, havia 63 corpos encontrados em uma área de mata, localizada na Serra da Misericórdia, no Complexo da Penha, onde se concentraram os confrontos entre traficantes e as forças de segurança.
Moradores da região afirmaram ter encontrado pelo menos 74 corpos, os quais foram levados até a Praça São Lucas, uma das principais da área, ao longo da madrugada de quarta-feira. No entanto, o número total de mortos ainda está sendo investigado, com uma perícia em andamento para esclarecer se essas mortes estão diretamente ligadas à operação.
A operação gerou controvérsias em relação aos números oficiais e à forma como os dados foram apresentados. O governador Cláudio Castro, durante coletiva, confirmou 58 mortes, sendo 54 de criminosos, mas não esclareceu a discrepância entre os números anteriores e os divulgados. Para ele, a operação foi um "sucesso", e destacou que as únicas vítimas foram os quatro policiais mortos durante o confronto.
Por sua vez, o secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, detalhou a estratégia utilizada pelas forças de segurança, destacando o que chamou de “Muro do Bope”, uma tática na qual os policiais avançaram pela área da Serra da Misericórdia, cercando os criminosos e empurrando-os para a mata, onde outras equipes já estavam posicionadas para reforçar a ação.
A operação de ontem e as suas consequências deixaram um rastro de destruição e morte, enquanto os moradores das comunidades enfrentam um cenário de pânico e insegurança. A resposta da segurança pública, embora eficaz em alguns aspectos, continua gerando dúvidas sobre os custos e a real eficácia das ações de combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro.