A previsão de um aumento real nos salários em 2026 deve se concretizar para poucos profissionais. Segundo o Guia Salarial 2026, elaborado pela consultoria Michael Page, apenas 20% das empresas têm intenção de conceder reajustes acima da correção obrigatória.
O cenário evidencia um contraste: enquanto as organizações buscam preservar caixa e manter a sustentabilidade financeira, cresce entre os trabalhadores a insatisfação com a remuneração. O estudo mostra que 45% das empresas não pretendem oferecer aumentos reais, número superior ao registrado no ano anterior (30%). A contenção acompanha um ambiente econômico instável, que tem levado companhias a priorizar eficiência e controle rígido de custos.
“Vivemos um momento desafiador, tanto no Brasil quanto no exterior. Para as empresas, a prioridade agora é proteger a saúde financeira e garantir sustentabilidade imediata”, afirma Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page. Ele explica que aumentos reais elevam permanentemente o custo fixo das empresas, o que faz com que muitas adotem uma postura cautelosa e acompanhem o movimento do mercado antes de decidir.
A insatisfação dos trabalhadores é perceptível: 59% não receberam aumento nos últimos 12 meses, e apenas 5% afirmam estar plenamente satisfeitos com o salário. O reflexo aparece no engajamento — somente 16% dizem estar muito satisfeitos com o trabalho, enquanto 73% relatam algum nível de descontentamento.
Benefícios ganham espaço como estratégia
Com o orçamento apertado para reajustes, os benefícios passam a ter papel central na retenção de talentos. Para 55% dos profissionais, eles são determinantes na escolha de um empregador. Entre os mais valorizados estão bônus, plano de saúde, alimentação e previdência privada, além de programas de capacitação.
“O desafio é construir pacotes que realmente impactem o colaborador sem comprometer a competitividade da empresa”, afirma Ricardo Basaglia, presidente da Michael Page no Brasil.
Apesar disso, a oferta de benefícios personalizados ainda está distante do que os profissionais desejam. Embora 42% considerem essencial ter opções flexíveis, 48% das empresas ainda trabalham com pacotes padronizados. Essa distância pode comprometer o engajamento e aumentar a rotatividade, especialmente em setores com forte concorrência por talentos. Oggiam destaca que os benefícios não substituem o salário, mas ajudam a elevar a satisfação quando atendem às necessidades reais dos colaboradores.
Escassez de profissionais qualificados aumenta a pressão
O estudo também mostra que 73% das empresas enfrentam dificuldades para contratar talentos qualificados. E o desafio não se limita ao conhecimento técnico: 88% das organizações afirmam valorizar habilidades comportamentais, como inteligência emocional, pensamento crítico e capacidade de adaptação.
Mesmo assim, há um descompasso. Embora 60% das empresas digam oferecer programas de desenvolvimento, apenas 28% dos profissionais utilizam essas oportunidades.
Quanto ao quadro de funcionários, 49% das empresas pretendem mantê-lo estável, enquanto 44% planejam contratações moderadas, de até 10%. O movimento reflete cautela e busca por crescimento sustentável.
Modelo de trabalho segue em transição
Apesar da popularização do home office e do trabalho híbrido, o formato totalmente presencial ainda prevalece em 42% das empresas. O modelo híbrido, porém, aparece logo atrás, com 44% de adesão, sugerindo um caminho de equilíbrio entre produtividade, redução de custos e bem-estar, sem abrir mão da cultura organizacional.