Brasil BRASILEIRA VENERÁVEL
A mulher que transformou a dor em missão pode se tornar a próxima santa brasileira
Venerável dedicou quase 50 anos a acolher enfermos e pessoas em sofrimento, mesmo imobilizada.
08/12/2025 16h09
Por: Admin Fonte: Nosso Dia

A trajetória de Maria de Lourdes Guarda, paulista de Salto, está a um passo de entrar oficialmente para a história da Igreja Católica. O papa Leão XIV autorizou o Dicastério para as Causas dos Santos a publicar o decreto que reconhece as virtudes heroicas da brasileira, tornando-a venerável e abrindo caminho para seu processo de beatificação e canonização.

Caso alcance a santidade, Maria de Lourdes será a primeira mulher paulista reconhecida como santa e a segunda pessoa do estado, ao lado de São Frei Galvão, de Guaratinguetá.

Uma vida marcada pela dor — e transformada em missão

Nascida em 1926 em uma família de raízes italianas, Maria de Lourdes sonhava em seguir a vida religiosa. Entretanto, problemas na coluna que surgiram ainda na juventude se agravaram quando ela tinha 21 anos, deixando-a paralisada e dependente de cuidados constantes. Durante quase cinco décadas, viveu entre um rígido colete de gesso, internações e a cama que se tornou sua companheira permanente.

Impedida de seguir carreira como freira, Lourdes encontrou outro caminho para servir à fé: tornou-se leiga consagrada no Instituto Secular Caritas Christi em 1970. Para o Vaticano, ela “transformou a própria dor em apostolado”, conduzindo sua vida com profunda devoção e espírito de serviço.

O quarto que virou refúgio espiritual

Apesar das inúmeras limitações físicas, Maria de Lourdes se tornou referência para pessoas que buscavam conselhos e conforto espiritual. Seu sobrinho, Geraldo Geriel Guarda, recorda que o quarto onde ela ficava internada no Hospital Matarazzo, em São Paulo, se transformou em um ponto de peregrinação silenciosa.
“Ela recebia pessoas aflitas, dava orientação, rezava… sempre tinha uma palavra de esperança”, lembra.

A enfermidade também não impediu que ela encontrasse meios para sustentar parte de seus tratamentos. Mesmo com uma perna amputada após sucessivas cirurgias, Lourdes fazia bordados, tricô e crochê, ajudando a custear sua própria estadia no hospital.

Um gesto que marcou vidas: o encontro com Roberto Carlos

Entre as histórias mais emocionantes ligadas a Lourdes está a de “Zezinho”, um menino com câncer terminal que foi internado no Matarazzo. Ao descobrir que o maior sonho do garoto era conhecer Roberto Carlos, ela escreveu ao cantor — e, no dia seguinte, o artista apareceu no quarto para realizá-lo.

Viagens de Kombi e a criação de mais de 250 núcleos de apoio

Amiga do padre Geraldo Nascimento, Lourdes manifestava desejo de conhecer comunidades vulneráveis. Quando o padre ganhou um bingo e comprou uma Kombi para ela, Lourdes passou a viajar, inclusive até o Rio Grande do Sul, onde conheceu a Fraternidade das Pessoas com Deficiência.

Daquela experiência nasceu um movimento nacional: durante os dez anos em que esteve à frente da fraternidade, foram criados mais de 250 núcleos para acolher e apoiar pessoas com deficiência em todo o Brasil.

A repercussão desse trabalho chamou a atenção da condessa Matarazzo, que decidiu isentar Lourdes de qualquer cobrança hospitalar. Quando o Matarazzo encerrou as atividades, ela permaneceu como a única paciente do hospital, sendo transferida posteriormente para outra ala.

A morte e a crescente fama de santidade

Maria de Lourdes faleceu em 5 de maio de 1996, aos 70 anos, vítima de câncer na bexiga. Sua reputação de santidade, já forte em vida, se intensificou após sua morte. Seus restos mortais estão na igreja matriz de Salto, onde fiéis buscam orações e relatam graças alcançadas por sua intercessão.

Segundo o sobrinho, o processo de beatificação ganhou visibilidade após um artigo do jornalista Mauro Chaves, publicado em 2003, que destacou uma frase marcante dita por ela ao saber que nunca mais poderia andar:
“Deixei de andar, não deixei de viver.”

Agora, com o decreto de reconhecimento das virtudes heroicas, Maria de Lourdes dá um passo significativo rumo ao altar dos santos — símbolo de fé, resiliência e amor dedicados a quem mais precisava.