Saúde Avanço Científico
Terapia inédita usa edição de DNA para tratar câncer incurável em crianças e adultos
Tratamento desenvolvido por pesquisadores britânicos alcança remissão em pacientes sem alternativas clínicas
09/12/2025 17h18
Por: Admin Fonte: G1 Saúde

Uma técnica que há poucos anos parecia saída da ficção científica está mudando a história de pacientes com cânceres sanguíneos considerados agressivos e sem cura. Médicos relatam que uma nova forma de terapia genética, capaz de reprogramar glóbulos brancos para que funcionem como um “medicamento vivo”, tem conseguido eliminar a doença em pessoas para as quais não havia mais alternativas.

A primeira paciente tratada com o método — cuja história se tornou pública em 2022 — segue livre do câncer e agora sonha em se tornar pesquisadora em oncologia. Desde então, outras oito crianças e dois adultos com leucemia linfoblástica aguda de células T passaram pelo mesmo tratamento. Oito deles tiveram remissão, ou seja, não apresentam mais sinais da doença após a terapia, embora isso não represente cura definitiva.

Quando o sistema imunológico deixa de defender e passa a atacar

Na forma de leucemia tratada pelos cientistas, as células T — que normalmente protegem o organismo contra invasores — passam a se multiplicar descontroladamente, causando o câncer. Para esses pacientes, tratamentos convencionais como quimioterapia e transplante de medula óssea já não surtiram efeito. A nova terapia experimental surgiu como última esperança.

Alyssa Tapley, uma adolescente de 16 anos de Leicester, no Reino Unido, foi a primeira pessoa no mundo a receber a abordagem no Great Ormond Street Hospital, em Londres. Ela lembra da fase mais crítica: “Eu realmente achava que iria morrer. Pensava que nunca teria a chance de crescer e viver como qualquer outra criança.”

Um sistema imunológico reconstruído do zero

O procedimento ao qual Alyssa foi submetida envolveu destruir todo o seu sistema imunológico e substituí-lo por um novo, criado a partir da engenharia genética. Durante quatro meses de internação, ela precisou evitar até mesmo o contato com o irmão para não correr risco de infecções.

Hoje, leva uma vida normal: faz exames apenas uma vez por ano, estuda para os A-levels, participa de programas de desenvolvimento juvenil e planeja tirar carteira de motorista. Também nutre o desejo de trabalhar futuramente em pesquisas sobre câncer no sangue. “Quero fazer estágio em ciências biomédicas e, quem sabe, ajudar a desenvolver tratamentos como o que me salvou”, afirma.

A tecnologia que reescreve o código da vida

A técnica utilizada pelos pesquisadores da University College London e do Great Ormond Street Hospital é chamada de edição de bases (base editing). O método permite alterar, com precisão cirúrgica, uma única “letra” do DNA — adenina (A), citosina (C), guanina (G) ou timina (T) — modificando sua estrutura molecular e reescrevendo o código genético.

Essas bases funcionam como o alfabeto da vida: combinadas aos bilhões, formam as instruções que dizem ao corpo como se desenvolver, reagir e sobreviver. Ao editar uma unidade específica desse código, os cientistas podem alterar o comportamento das células, transformando-as em armas altamente eficazes contra o câncer.

A terapia ainda é experimental, mas já demonstra um potencial revolucionário no tratamento de tipos de leucemia que antes não ofereciam qualquer perspectiva de cura.