Internacional Guerra
Guerra no Oriente Médio pressiona cadeia global e acende alerta de crise alimentar que pode atingir milhões
Conflito impacta rotas marítimas, encarece fertilizantes e pode afetar milhões de pessoas em todo o mundo
25/03/2026 09h19
Por: Admin Fonte: G1

A escalada do conflito envolvendo o Irã já começa a gerar reflexos preocupantes no abastecimento global de alimentos. Mesmo concentrada no Oriente Médio, a crise afeta diretamente cadeias logísticas e produtivas, elevando custos e ameaçando a segurança alimentar em diversos países.

Um dos principais impactos ocorre no transporte marítimo. Com o aumento dos riscos na região, navios cargueiros têm sido obrigados a alterar suas rotas, percorrendo trajetos mais longos e caros. Em alguns casos, embarcações que saem da Índia com destino ao Sudão estão contornando o continente africano antes de acessar o Mar Vermelho pelo Canal de Suez. A mudança adiciona milhares de quilômetros às viagens, resultando em atrasos significativos e aumento nos custos de frete, que já subiram até 20%. O petróleo, essencial para o transporte, também registra alta de cerca de 40%.

Outro fator crítico é o mercado de fertilizantes. A Rússia, um dos maiores fornecedores mundiais, anunciou a suspensão temporária das exportações por um mês, com o objetivo de priorizar o abastecimento interno. A medida se soma a restrições semelhantes adotadas por outros países, como a China, e amplia o temor de escassez no mercado internacional.

O impacto já é visível nos preços. A ureia, principal fertilizante nitrogenado utilizado na agricultura, teve aumento de aproximadamente 50%. A produção desse insumo depende diretamente do gás natural, e a região do Oriente Médio concentra importantes reservas, agora afetadas pela instabilidade. Além disso, o Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passava cerca de um terço do comércio global de fertilizantes — enfrenta dificuldades operacionais, enquanto fábricas no Golfo reduziram ou interromperam suas atividades.

Especialistas alertam que a falta de fertilizantes no momento adequado pode comprometer safras inteiras. Sem a aplicação no período correto, a produtividade agrícola tende a cair, o que agrava ainda mais o cenário de oferta global de alimentos.

No Brasil, os efeitos ainda não são imediatos, já que o próximo ciclo de plantio ocorre no segundo semestre. No entanto, a dependência externa preocupa: cerca de 25% dos fertilizantes importados pelo país vêm da Rússia. A possibilidade de restrições prolongadas acende o alerta para aumento de custos e eventual desabastecimento.

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA), a situação pode se agravar rapidamente. A estimativa é de que até 45 milhões de pessoas possam enfrentar fome caso o preço do petróleo ultrapasse os 100 dólares por barril até junho. A crise é considerada especialmente grave em regiões da África e da Ásia, mas seus efeitos já são classificados como globais.

Para agravar o cenário, o próprio PMA enfrenta redução nas contribuições financeiras, em um momento em que diversos países têm direcionado recursos para investimentos em defesa. O resultado é um sistema internacional mais fragilizado justamente quando a demanda por assistência humanitária aumenta.

O histórico mostra que a combinação de alimentos caros e escassos pode gerar instabilidade social e política, criando um ciclo que, por vezes, alimenta novos conflitos. Diante disso, especialistas alertam que o mundo entra em um período de incerteza, em que a segurança alimentar passa a ser uma preocupação central.