Política Eleições 2026
Meta teve 568 anúncios no período proibido e mais de 6 mil registros sem identificação nas Eleições 2026
Levantamentos apontam falhas distintas na publicidade política digital: um identifica anúncios veiculados durante período de restrição e outro mostra milhares de peças sem identificação clara do responsável.
07/10/2026 10h26
Por: Admin Fonte: Gazeta do Paraná

Um estudo do Observatório das Big Techs, do NetLab/UFRJ, identificou 568 anúncios veiculados nas plataformas da Meta durante o período em que a propaganda eleitoral paga deveria estar suspensa no primeiro turno das Eleições 2026.

A análise ganhou novo peso após um levantamento da Gazeta do Paraná na Biblioteca de Anúncios da própria Meta, responsável por Facebook e Instagram.

Segundo a publicação, foram encontrados 6.143 anúncios vinculados a registros classificados pela empresa como “These ads ran without a disclaimer”, expressão usada para indicar peças que circularam sem a identificação do responsável pela publicidade.

Os dois números, no entanto, representam situações diferentes e não devem ser somados.

O levantamento do NetLab analisa principalmente o período em que os anúncios circularam. Já os dados consultados na Biblioteca de Anúncios tratam da identificação de quem financiou ou se responsabilizou pela publicidade.

PROPAGANDA PAGA TEM RESTRIÇÃO NO PERÍODO ELEITORAL

Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral, a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet deve ser interrompida 48 horas antes da eleição e só pode voltar 24 horas depois do encerramento da votação, mesmo quando a contratação foi realizada anteriormente.

A regra não proíbe manifestações políticas espontâneas e gratuitas na internet. A restrição é direcionada ao conteúdo eleitoral cuja distribuição é ampliada mediante pagamento.

Foi justamente nesse intervalo que o NetLab encontrou os 568 anúncios considerados incompatíveis com a restrição eleitoral nas plataformas da Meta. O estudo também apontou ocorrências em outras empresas de tecnologia.

MAIS DE 6 MIL ANÚNCIOS APARECEM SEM DISCLAIMER

A Gazeta do Paraná analisou um relatório da Biblioteca de Anúncios da Meta contendo 13.869 registros de páginas e disclaimers.

Dentro da base, 2.864 registros apareciam classificados como anúncios que circularam sem disclaimer e, somados, correspondiam a 6.143 peças publicitárias.

O dado não permite concluir que todos esses anúncios sejam propaganda eleitoral irregular.

A base também reúne publicidade relacionada a política, eleições e temas sociais, e o relatório agregado não permite identificar com precisão, para todos os registros, o período em que cada anúncio esteve ativo.

Ainda assim, os dados mostram que milhares de anúncios classificados dentro da publicidade política da plataforma circularam sem uma identificação clara do responsável.

GASTOS SUPERAM R$ 400 MIL NOS REGISTROS COM VALOR DEFINIDO

Nos casos em que a Biblioteca de Anúncios informa valores específicos, os gastos somam pelo menos R$ 413,1 mil.

Em outros milhares de registros, porém, a plataforma apresenta apenas faixas estimadas de gasto, o que impede determinar o valor total exato movimentado por essas peças.

PÁGINAS DE CANDIDATURAS TAMBÉM APARECEM NOS DADOS

O levantamento também cruzou os chamados Page IDs, identificadores exclusivos utilizados pela Meta para cada página.

Foram identificadas 25 páginas que aparecem, em determinados registros, associadas a disclaimers de candidaturas das Eleições 2026 e, em outros, vinculadas a anúncios sem identificação.

Nessas páginas, foram encontrados 36 anúncios sem disclaimer.

O cruzamento indica que páginas formalmente relacionadas a candidaturas também aparecem na própria base da Meta com peças publicitárias em que não consta a identificação do responsável.

ANÚNCIOS FALSOS PROMETIAM VOTAÇÃO PELO CELULAR

Entre os conteúdos analisados pelo NetLab, seis anúncios chamaram atenção por simular comunicações da Justiça Eleitoral e oferecer uma suposta possibilidade de votar de casa ou pelo celular.

Não existe votação remota pelo celular nas eleições brasileiras.

Segundo o levantamento, algumas dessas peças direcionavam usuários para páginas que solicitavam informações pessoais, como CPF, sob a justificativa de iniciar uma falsa votação.

Nesse caso, além da questão eleitoral, o episódio também levanta preocupações relacionadas à segurança digital e à possível coleta indevida de dados pessoais.

TRANSPARÊNCIA DAS PLATAFORMAS É QUESTIONADA

Outro ponto levantado pelos pesquisadores envolve diferenças entre as próprias ferramentas de transparência oferecidas pelas plataformas.

Segundo o NetLab, alguns anúncios apareciam como inativos na Biblioteca de Anúncios da Meta, mas ainda eram identificados como ativos em consultas por meio da API da empresa.

Esse tipo de divergência pode dificultar a fiscalização em tempo real, especialmente durante o período eleitoral, quando poucas horas adicionais de circulação podem representar um grande número de visualizações.

A Meta afirma que cumpre a legislação eleitoral e contesta a interpretação de que os dados representem toda a dimensão de suas medidas de integridade.

Os números, porém, reacendem a discussão sobre a capacidade das plataformas de informar com precisão quem paga pela propaganda política, quando ela circula e se as regras eleitorais estão sendo cumpridas.