O Banco do Brasil informou na quarta-feira (11), ao divulgar seu balanço financeiro, que uma empresa do setor atacadista deixou de honrar cerca de R$ 3,6 bilhões em obrigações no quarto trimestre de 2025. O episódio pressionou os indicadores de crédito da instituição no período.
Com o impacto, o índice de inadimplência acima de 90 dias — que mede a parcela das operações com atraso superior a três meses e serve como termômetro da qualidade da carteira — avançou para 5,17%. No terceiro trimestre, o percentual era de 4,51%, e no mesmo período de 2024, de 3,16%. Desconsiderando o caso específico, o indicador ficaria em 4,88%, segundo o banco.
Durante coletiva de imprensa, o vice-presidente de Riscos, Felipe Prince, afirmou que se trata de uma situação antiga, já classificada como problemática e devidamente provisionada ao longo dos últimos anos. Ele explicou que a renegociação foi concluída no fim de 2025, com formalização dos instrumentos no início de 2026. A operação foi regularizada em janeiro e posteriormente cedida a terceiros, transferindo o crédito para outro credor.
O banco não divulgou o nome da companhia envolvida. Reportagens do Valor Econômico e do g1 apontaram que a empresa seria a Braskem, informação negada pela própria companhia em comunicado ao mercado.
Apesar da repercussão do caso, as ações do Banco do Brasil encerraram a quinta-feira com alta de 4,50%, refletindo a reação positiva dos investidores ao desempenho trimestral.
Lucro encolhe em 2025, mas supera projeções do mercado no trimestre
Em 2025, o Banco do Brasil apurou lucro líquido de R$ 20,7 bilhões, dentro do intervalo mais recente projetado pela instituição, entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. O resultado representa retração de 45,4% frente a 2024.
Ao longo do ano, o banco revisou sucessivamente suas estimativas. A projeção inicial indicava lucro entre R$ 37 bilhões e R$ 41 bilhões, mas foi suspensa em maio. Em agosto, o intervalo foi ajustado para R$ 21 bilhões a R$ 25 bilhões, e novamente reduzido em novembro.
A presidente-executiva, Tarciana Medeiros, destacou que 2025 foi marcado por ajustes, após impactos relevantes da inadimplência no agronegócio e da adoção de novas normas contábeis.
No quarto trimestre, o lucro líquido ajustado somou R$ 5,7 bilhões — queda de 40,1% em relação ao mesmo período de 2024, mas avanço de 51,7% frente ao terceiro trimestre. O desempenho superou as estimativas compiladas pela LSEG, que apontavam lucro de R$ 4,5 bilhões.
Projeções indicam recuperação gradual em 2026
Para 2026, o Banco do Brasil estima lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. A instituição projeta crescimento de 0,5% a 4,5% na carteira de crédito total.
A expansão esperada para pessoa física varia de 6% a 10%. No segmento empresarial, a previsão vai de retração de 3% a avanço de 1%. Já no agronegócio, o intervalo estimado é de queda de 2% a alta de 2%.
O custo do crédito deve ficar entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões. As receitas com prestação de serviços tendem a crescer entre 2% e 6%, enquanto as despesas administrativas podem avançar de 5% a 9%. A margem financeira bruta deve aumentar de 4% a 8%.
Em nota, Medeiros afirmou que os números indicam sinais de inflexão e reforçou o foco em gestão de riscos, fortalecimento de garantias e novos produtos, especialmente voltados ao agronegócio.
Carteira chega a R$ 1,3 trilhão e inadimplência avança
Ao final de dezembro, a carteira de crédito expandida do banco totalizava quase R$ 1,3 trilhão, com alta de 1,4% no trimestre e de 2,5% na comparação anual.
Na pessoa física, o saldo cresceu 1,8% no trimestre e 7,6% em 12 meses. A inadimplência acima de 90 dias nesse segmento atingiu 6,56%, ante 6,01% no trimestre anterior e 4,66% um ano antes.
Entre as empresas, a carteira permaneceu estável, e o índice de atrasos subiu para 3,75%, frente a 3,40% no terceiro trimestre e 3,30% no quarto trimestre de 2024.
No agronegócio, a carteira avançou 1,8% no trimestre e 2,1% na comparação anual. A inadimplência nesse segmento chegou a 6,09%, ante 4,84% no trimestre anterior e 2,23% um ano antes. Executivos já haviam sinalizado que a pressão nesse segmento poderia começar a diminuir a partir do primeiro trimestre de 2026.
O custo do crédito no quarto trimestre ficou próximo de R$ 18 bilhões, praticamente estável frente ao trimestre anterior, mas 93,9% superior ao registrado um ano antes.
Rentabilidade reage, mas ainda abaixo dos concorrentes
O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) voltou ao patamar de dois dígitos no quarto trimestre, alcançando 12,4%, acima dos 8,4% do trimestre anterior, porém inferior aos 20,8% registrados em 2024.
O desempenho ficou abaixo do apresentado por concorrentes como o Itaú Unibanco (24,4%), Santander Brasil (17,6%) e Bradesco (15,2%).
A margem financeira bruta somou R$ 27,8 bilhões, com alta anual de 3,8%. As receitas de serviços recuaram 3,9%, enquanto as despesas cresceram 4,1%. O índice de eficiência passou de 25,6% para 27,7%.
No capital, o nível 1 subiu de 12,66% para 14,26%, o capital principal avançou de 10,89% para 12,23%, e o índice de Basileia atingiu 15,13%.
O banco também anunciou a distribuição de R$ 1,2 bilhão em juros sobre capital próprio (JCP) complementar aos acionistas.

