
Criar abelhas em casa pode parecer incomum, mas a prática tem se tornado cada vez mais popular entre pessoas que buscam animais de estimação de baixa manutenção e, ao mesmo tempo, desejam contribuir com a preservação ambiental. No Brasil, diversas espécies nativas não possuem ferrão, são dóceis e podem ser criadas em pequenas quantidades sem a necessidade de licença ambiental.
Em Umuarama, no noroeste do estado, o campus regional da Universidade Estadual de Maringá (UEM) desenvolve um projeto voltado à conservação das abelhas sem ferrão, incentivando a população a conhecer e preservar essas espécies. A iniciativa inclui espaços educativos conhecidos como meliponários, onde são criadas diferentes variedades de abelhas nativas.
De acordo com o professor Valdir Zucareli, responsável pelos meliponários da universidade, existem mais de 300 espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, todas adaptadas ao ambiente natural do país. Segundo ele, além de serem inofensivas, mantê-las em casa pode contribuir diretamente para a conservação da biodiversidade.
Essas abelhas pertencem à tribo Meliponini, motivo pelo qual os locais destinados à criação recebem o nome de meliponários. Diferentemente das espécies com ferrão — como a Apis mellifera, criadas em apiários para produção comercial de mel —, as abelhas nativas produzem quantidades menores de mel, porém com alto valor medicinal e gastronômico. Além disso, desempenham um papel essencial na polinização da flora nativa.
Entre as espécies mais recomendadas para iniciantes está a Jataí, considerada uma das mais dóceis e fáceis de manejar. Na região norte e noroeste do Paraná também são comuns espécies como Mandaçaia, Mirim e Mandaguari.
Segundo Zucareli, manter uma colmeia em casa exige pouco trabalho no dia a dia, o que desperta o interesse de muitas pessoas. Diferentemente de outros animais domésticos, as abelhas não precisam de passeios ou alimentação frequente, o que as torna uma alternativa interessante para quem tem rotina corrida.
Além da preservação ambiental, a criação também possui valor educativo e terapêutico. O especialista explica que crianças podem aprender sobre organização social, sustentabilidade e produção de mel, enquanto idosos encontram na atividade uma forma de terapia ocupacional e contato com a natureza.
O projeto da UEM em Umuarama existe há cerca de três anos e conta com dois meliponários didáticos: um localizado na fazenda experimental da universidade, com diversas espécies nativas, e outro no Bosque Uirapuru, aberto a visitas guiadas. Os espaços têm como objetivo promover educação ambiental e conscientização sobre a importância das abelhas para os ecossistemas.
Devido à alta procura, a universidade deixou de distribuir colmeias para a população em geral. Atualmente, as doações são direcionadas a escolas, unidades socioeducativas e instituições que atendem idosos. Mesmo assim, o projeto continua oferecendo iscas ecológicas feitas com garrafas PET, cursos e oficinas, ensinando como capturar e transferir colônias para caixas apropriadas.
O interesse pelas abelhas tem conquistado pessoas de diferentes idades. Um exemplo é o jovem Vinicius dos Santos Leite da Silva, que começou a se dedicar à atividade ainda criança e hoje cuida de várias colmeias em casa. Já a auxiliar operacional Soraia Santos de Liro Guirão, apaixonada por animais, adotou as abelhas como companhia pela facilidade de manejo e pelo contato diário com a natureza.
Mesmo consideradas de baixa manutenção, as abelhas também exigem alguns cuidados. Segundo especialistas, as colmeias devem ser mantidas em locais sombreados, com exposição apenas ao sol da manhã, e a retirada do mel deve ser feita com moderação, principalmente no verão, para garantir alimento suficiente para a colônia durante o inverno.
No Paraná, a criação de abelhas sem ferrão é regulamentada pela Lei Estadual nº 19.152/2017, que estabelece regras para manejo, transporte e comercialização dessas espécies. A norma permite a criação para fins de conservação, educação ambiental, lazer e consumo familiar de mel.
Criadores com até dez colmeias não precisam de licença ambiental, embora seja recomendado realizar cadastro junto à Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). Já quem possui quantidade maior ou pretende comercializar produtos derivados da meliponicultura deve registrar oficialmente a atividade.
Especialistas destacam que o cadastro ajuda no mapeamento das espécies preservadas e no monitoramento dos criadores, contribuindo para a conservação das abelhas nativas — fundamentais para a manutenção da biodiversidade e para o equilíbrio dos ecossistemas.
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