
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelaram uma relação de proximidade com a direção do portal de notícias Metrópoles. Segundo reportagem divulgada nesta quinta-feira (15), o banqueiro recebia antecipadamente conteúdos jornalísticos, sugeria mudanças em reportagens e chegou a solicitar que determinadas informações não fossem publicadas.
As conversas envolvem a CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, que mantinha contato direto com Vorcaro durante o período em que o Banco Master enfrentava questionamentos sobre sua situação financeira e a tentativa de venda de parte da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
O material foi obtido a partir de mensagens analisadas pela Polícia Federal e divulgado inicialmente pelo UOL. Os registros levantam questionamentos sobre a independência editorial do veículo e a influência de interesses empresariais na produção de notícias.
De acordo com o levantamento, ao menos 14 textos jornalísticos foram encaminhados a Vorcaro antes de serem publicados. Em 11 deles, houve alterações após observações feitas pelo empresário.
As conversas mostram que a direção do portal consultava o banqueiro sobre informações relacionadas ao Banco Master, incluindo balanços financeiros, negociações com outras instituições e decisões do Banco Central.
Em abril de 2025, por exemplo, Vorcaro questionou uma informação envolvendo uma suposta proposta de compra de ativos do Master por apenas R$ 1.
Após a reclamação, Lilian Tahan informou que a referência havia sido retirada e encaminhou uma nova versão da reportagem.
Em outra ocasião, a executiva enviou um texto comparando os resultados financeiros do Banco Master e do BRB. Vorcaro sugeriu mudanças nos números apresentados, que posteriormente foram incorporadas à publicação.
A influência apontada pelas mensagens não se limitava ao conteúdo das reportagens.
Em julho de 2025, durante a cobertura da negociação entre o Banco Master e o BRB, Vorcaro sugeriu a alteração de uma manchete relacionada à análise da operação pelo Banco Central.
A proposta do empresário era substituir uma formulação que indicava a conclusão de uma etapa da negociação por outra que transmitisse a expectativa de aprovação da compra nos dias seguintes.
Segundo os registros divulgados, a sugestão foi aceita pela direção do portal.
O Banco Central acabou rejeitando a operação em setembro de 2025, e o Banco Master foi liquidado em novembro daquele ano.
Um dos episódios mais relevantes ocorreu em outubro de 2025, quando a direção do Metrópoles apresentou ao empresário uma reportagem sobre uma operação envolvendo a rede Oncoclínicas e o Banco Master.
Antes da publicação, Lilian Tahan perguntou se o conteúdo poderia causar algum problema ao banqueiro.
Vorcaro manifestou insatisfação com as informações e questionou a forma como o assunto estava sendo apresentado.
Após a resposta, a executiva decidiu não levar a reportagem ao ar.
O episódio é apontado pela apuração como um dos exemplos mais claros da influência exercida pelo empresário sobre decisões editoriais do veículo.
As mensagens também mostram uma tentativa de interferência na cobertura política relacionada ao Banco Master.
Em agosto de 2025, Vorcaro pediu que o portal reduzisse temporariamente a exposição de Ricardo Cappelli, político que vinha fazendo críticas à negociação entre o Master e o BRB.
A solicitação foi encaminhada diretamente a Lilian Tahan, que respondeu de maneira favorável ao pedido.
A situação ampliou os questionamentos sobre a relação entre os interesses do empresário e as decisões tomadas pela direção do veículo.
A aproximação entre Vorcaro e o Metrópoles ocorreu durante um período de relacionamento comercial entre as duas organizações.
Em 2024, o Banco Master firmou um contrato publicitário de aproximadamente R$ 20 milhões com o portal.
Segundo as informações divulgadas, os pagamentos foram realizados ao longo de 2025.
A existência do acordo comercial, somada às mensagens sobre conteúdos jornalísticos, passou a integrar o debate sobre os limites entre publicidade e independência editorial.
Entretanto, o contrato publicitário, por si só, não comprova que houve compra de cobertura favorável.
Procurada pelo UOL, Lilian Tahan afirmou que a verificação de informações com fontes envolvidas nas reportagens faz parte de sua prática profissional.
A executiva também negou que o contrato de publicidade firmado com o Banco Master tivesse influência sobre a linha editorial do Metrópoles.
Como argumento, destacou que o portal publicou diversas reportagens críticas sobre empresas relacionadas a Vorcaro e sobre a situação financeira do banco.
As explicações foram apresentadas após a divulgação das conversas e integram o posicionamento da direção diante dos questionamentos levantados pela investigação jornalística.
A divulgação das mensagens trouxe à tona discussões sobre a relação entre empresas, anunciantes e veículos de comunicação.
A independência editorial é considerada um dos princípios fundamentais do jornalismo, especialmente em reportagens que envolvem instituições financeiras, autoridades públicas e assuntos de interesse coletivo.
A consulta a fontes para confirmar dados é uma prática jornalística legítima. Entretanto, a possibilidade de uma fonte determinar títulos, retirar informações relevantes ou impedir publicações levanta questionamentos sobre os critérios adotados na produção do conteúdo.
As revelações envolvendo Daniel Vorcaro e a direção do Metrópoles ampliam as repercussões do caso Banco Master, que já é alvo de investigações relacionadas a suspeitas de irregularidades bilionárias no sistema financeiro brasileiro.
Mín. 17° Máx. 21°
